Pastéis de Belém. Uma receita secreta com mais de 180 anos

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Pastéis de Belém. Uma receita secreta com mais de 180 anos

Quem conhece os Pastéis de Belém sabe que estes são feitos a partir de uma receita secreta que tem vindo a passar de geração em geração. Mas sabia que existe a Oficina do Segredo?

Muitas pastelarias e confeitarias históricas têm a sua receita secreta. Os bolos são produzidos com base em receitas centenárias, que nunca foram lidas e passaram apenas de boca em boca entre os pasteleiros mais antigos dos estabelecimentos. Mas a receita dos Pastéis de Belém é (provavelmente) o segredo mais bem guardado de todos.

Para percebermos como surgiu a “lenda”, é preciso conhecer a história deste espaço. Estamos em 1820, ano em que se dá a Revolução Liberal no Porto, alastrando ao resto do país.

Os revolucionários afastam os ingleses do governo e criam a Junta Provisional de Governo do Reino. D. João vi, com medo de ser afastado pelas Cortes, regressa a Portugal um ano depois e, em 1822, após o compromisso para com a Constituição criada, passa-se de uma monarquia absoluta para uma liberal.

Em 1834, em consequência destas mudanças e da consolidação do liberalismo, são encerrados todos os conventos e mosteiros de Portugal.

O clero e as pessoas que ali trabalhavam foram expulsos, ficando sem sustento e onde viver.

Reza a história que, numa tentativa de sobrevivência, alguém que vivia no Mosteiro dos Jerónimos repara numa refinaria de cana-de-açúcar, associada a um pequeno local de comércio variado, que funcionava perto do claustro. Essa pessoa, que nunca chegou a ser identificada, decide começar a vender pastéis nesse espaço – e os doces rapidamente ganharam o nome de pastéis de Belém.

A fama destas iguarias cresceu rapidamente – já naquela altura, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém atraíam muitos visitantes. Perante a quantidade de encomendas e o sucesso do produto, inicia-se em 1837 o fabrico dos Pastéis de Belém, em instalações anexas à refinaria.

O segredo está na receita O pastel confecionado em 1837 segue exatamente a mesma receita usada nos dias de hoje. “A história mais curiosa relacionada com esta casa é mesmo a receita secreta, que ao longo destes 180 anos se manteve inalterada e na posse dos poucos ‘Mestres do Segredo’. Atualmente, apenas três mestres e a gerência sabem a receita, seis pessoas no total”, explicou ao i Miguel Clarinha, gerente dos Pastéis de Belém.

Se existe ou não um documento com a receita original? Não sabemos. Os donos da confeitaria preferem manter tudo em segredo. “Apenas podemos dizer que nenhum documento alguma vez foi entregue aos mestres, a receita é passada de mestre para mestre na confeção”, acrescentou o gerente.

A verdade é que até existe um sítio específico – a Oficina do Segredo – onde é dado o toque especial aos doces. Ninguém (a não ser os poucos que conhecem a receita secreta) está autorizado a passar para aquela divisão… muito menos o nosso fotojornalista.

Os pastéis de Amália Milhares de pessoas entram todos os anos nos Pastéis de Belém, que já fazem parte da rota de muitos turistas. Mas para além dos curiosos que querem provar o famoso pastel, várias personalidades encontraram nesta casa um local onde conviver, resguardar-se ou apenas saborear um belo lanche.

Era o caso da fadista Amália Rodrigues e do escritor brasileiro Jorge Amado, duas personalidades que, segundo Miguel Clarinha, eram clientes assíduos.

“Lembro-me também de, por vezes, aparecerem visitas de Estado ou monarquia, embora fossem raras. Há alguns anos passaram por aqui elementos da monarquia norueguesa, por exemplo”, explica o gerente.

Para além destas personalidades, Miguel Clarinha afirma que os Presidentes da República (incluindo o atual) frequentaram os Pastéis de Belém, bem como vários primeiros-ministros – “todos em contexto informal”, refere.

Vários nomes sonantes passaram por esta casa, mas a vida do espaço deve-se a muitos outros fatores: “Toda a história e origem deste produto, bem como a localização geográfica da confeitaria, são, na nossa opinião, aspetos que fazem dos Pastéis de Belém um doce único”, explica o responsável.

Assim, quase 180 anos depois de ter aberto, milhares de clientes continuam a comer o seu doce neste espaço. A receita permanece secreta e, se tudo correr como previsto, continuará bem guardada na Oficina do Segredo.

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Fonte do texto: https://ionline.sapo.pt

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